Um ecossistema no tanque
3. CRIAR
A ação CRIAR do eixo Reabilitar corresponde ao estudo e desenvolvimento de um sistema de fitoremediação para o tanque dos Lavadouros das Fontaínhas, concebido pela dupla artística Landra, no âmbito da preparação das sessões #21, #22 e #23 — Plantas Lavadeiras, da secção Ativar do projeto Cultivar a Proximidade.
A intervenção surge na sequência do trabalho de observação ecológica e monitorização da qualidade da água desenvolvido durante as oficinas Plantas Lavadeiras, propondo transformar o tanque dos lavadouros num pequeno ecossistema vivo, capaz de contribuir para a melhoria das condições da água e para o aumento da biodiversidade existente no espaço.
O projeto baseia-se nos princípios da fitoremediação, utilizando plantas aquáticas e ribeirinhas e os microrganismos associados às suas raízes como elementos ativos de regeneração ecológica. A presença destas comunidades poderá contribuir para a retenção e transformação de nutrientes, para uma melhor oxigenação da água e para o estabelecimento de relações ecológicas mais diversas no interior do tanque.
A proposta foi desenvolvida a partir da leitura científica das condições existentes, realizada pela Landra em colaboração com o professor Luís Xavier durante as atividades do projeto. As observações e análises realizadas permitiram identificar uma forte estratificação da coluna de água, com uma diminuição significativa dos níveis de oxigénio nas camadas mais profundas. Em resposta a estas condições, foi concebido um sistema destinado a promover uma circulação mais eficiente da água e a criar condições para a instalação de comunidades vegetais a diferentes profundidades.
Uma das componentes do sistema consiste num elemento cerâmico colocado sob a bica principal, concebido para conduzir a água através de diferentes profundidades do tanque antes do seu regresso à superfície. Esta circulação procura melhorar a distribuição do oxigénio e reduzir a estratificação da coluna de água, criando condições mais favoráveis ao desenvolvimento das comunidades microbianas associadas ao sistema.
Em complemento, são instaladas bolsas de substrato suspensas a diferentes níveis do tanque, suportadas por pequenas estruturas submersas. Estas permitem introduzir diferentes espécies aquáticas e ribeirinhas, distribuídas de acordo com as suas preferências ecológicas e criando uma sucessão de habitats ao longo da coluna de água. Desta forma, aumenta-se a superfície de contacto entre raízes, água, substratos e microrganismos, favorecendo a diversidade biológica do sistema.
Os elementos cerâmicos são produzidos artesanalmente para esta intervenção, utilizando materiais de base mineral compatíveis com o contexto geológico e material dos próprios lavadouros. A sua superfície não vidrada e textura rugosa contribuem ainda para a criação de micro-habitats onde diferentes organismos aquáticos podem instalar-se.
A implementação do sistema foi concebida como um processo participativo, envolvendo os participantes das sessões Plantas Lavadeiras na preparação, plantação e instalação das diferentes componentes. A intervenção não se encerra no momento da sua instalação: o sistema foi pensado para evoluir ao longo do tempo, através do crescimento das plantas e do desenvolvimento das comunidades de microrganismos e outros organismos associados.
A sua manutenção passa sobretudo pela observação regular do sistema e pela remoção controlada do excesso de biomassa vegetal. Sempre que adequado, esta matéria orgânica poderá ser encaminhada para as Hortas das Fontaínhas, onde poderá ser aproveitada como recurso para fertilização, reforçando a ligação ecológica entre os dois espaços e contribuindo para um ciclo local de reaproveitamento de nutrientes.
Mais do que acrescentar um novo elemento aos Lavadouros, esta ação procura criar uma infraestrutura ecológica viva, capaz de transformar o tanque num lugar de experimentação, observação e aprendizagem. É uma intervenção onde arte, ciência e participação comunitária se cruzam para introduzir novas formas de vida e novas possibilidades de relação com o espaço público.
Parceiros do Projeto nesta sessão
Sara Rodrigues e Rodrigo Camacho (Landra)
Landra é o nome da prática artística desenvolvida por Sara Rodrigues e Rodrigo Camacho desde 2020. Inspirado nas landras — os frutos dos carvalhos — o projeto procura recuperar valores associados à autonomia, à partilha e à abundância, articulando arte, ecologia e modos de vida sustentáveis.
A partir de uma agrofloresta em desenvolvimento e de uma investigação contínua sobre permacultura, microbiologia do solo e regeneração ecológica, o duo desenvolve projetos que cruzam vídeo, performance, instalação, composição audiovisual e intervenção no espaço público. O seu trabalho explora as relações entre arte e ciência, promovendo processos colaborativos de observação, aprendizagem e cuidado dos ecossistemas.
Luís Xavier
Luís Xavier é biólogo, professor e divulgador científico, com trabalho desenvolvido nas áreas da educação ambiental, botânica e ecologia. Atualmente leciona na Escola Secundária Carolina Michaelis, onde promove atividades de aproximação entre ciência, natureza e comunidade.
Licenciado em Biologia e mestre em Hidrobiologia, possui também formação em Arquitetura Paisagista pela Universidade do Porto. Ao longo do seu percurso tem coordenado visitas guiadas, colaborado na conceção de espaços verdes, participado em projetos de divulgação científica e contribuído para diversas iniciativas de valorização do património natural. É membro fundador da Associação Hortus Conclusus.
No âmbito de Plantas Lavadeiras, contribuiu com o enquadramento científico da atividade, apoiando os participantes na observação dos ecossistemas aquáticos e na compreensão dos processos ecológicos envolvidos na regeneração da qualidade da água.