Sessão #15

“Baldio Urbano” — Caminhada guiada sobre vegetação silvestre comestível

Data: 15 de abril de 2026
Local: Ramal da Alfândega, Fontainhas
Duração: 14h30 – 17h00


Por definição, um terreno ‘baldio’ é aquele que não está cultivado ou está por cultivar, e que por isso é inculto, maninho. ‘Baldio’ é também o termo utilizado para designar um terreno gerido e usado coletivamente por uma comunidade local, onde se pasta o gado, se apanham matos para as camas dos animais e para adubar as terras, e se recolhe lenha para a lareira.

Em Portugal, são hoje raros os baldios no sentido original da palavra. Com o Estado Novo, muitos foram entregues a privados ou apropriados pelo Estado para exploração agrícola e florestação intensiva, primeiro com pinhal e depois com eucaliptal. Ainda assim, existem locais residuais, inclusivamente na cidade, onde a vegetação cresce de forma espontânea, lembrando um tempo em que a terra não tinha propriedade, era simultaneamente de todos e de ninguém, e os seus recursos eram geridos com parcimónia, sem prejudicar o equilíbrio do ecossistema nem a partilha com as gerações futuras.

É a partir desta ideia subjacente de ‘bem-comum’ que vamos descer pelas hortas junto ao Lavadouro das Fontainhas (outrora também ele um lugar de uso coletivo) e deambular pelo Ramal da Alfândega à procura de plantas silvestres comestíveis e medicinais. Aprenderemos a identificá-las, a nomeá-las e a conhecer os seus principais usos e curiosidades etnobotânicas, reconhecendo assim o seu valor. Perceberemos que este baldio não está vazio nem é inculto; muito pelo contrário, é um oásis verde na cidade, que devemos cuidar e proteger.

Com esta deriva, A Recoletora pretende consciencializar os participantes para a preservação dos baldios urbanos, simultaneamente enquanto redutos de diversidade selvagem e como espaços de resistência e liberdade, onde se podem ensaiar outros modos de pensar e co-habitar a cidade.

Ao longo das sessões, valorizou-se a experimentação livre, a curiosidade e a criatividade, promovendo a ideia de que o território pode ser simultaneamente espaço de aprendizagem, de jogo e de expressão artística.



Sobre o local

O antigo Ramal da Alfândega, nas Fontainhas, foi um dos primeiros locais mapeados pela Recoletora. Esta curta via férrea, desativada em 1989, era dedicada exclusivamente ao transporte de mercadorias, que chegavam de barco ao porto da Alfândega e eram depois distribuídas para o resto do país a partir da estação de Campanhã. Há muito que os comboios deixaram de passar nestas linhas mas o trajeto, rasgado por vários túneis, continua bem marcado na paisagem, sempre paralelo ao rio Douro.

Ao longo deste percurso linear, poderemos desfrutar de uma vista desafogada sobre o rio, da bonita sucessão de pontes, e identificar uma enorme variedade de plantas silvestres comestíveis e medicinais (mais de 40), indo das ervas mais rasteiras a cactos e árvores de médio porte.



Público-alvo

Alunos e professores da FAUP.



Parceiros do Projeto nesta sessão

A Recoletora
A Recoletora é a prática artística e pedagógica do artista visual Alexandre Delmar (Porto, 1982) e da designer Maria Ruivo (V. N. Famalicão, 1986), dedicada ao estudo dos lugares de reciprocidade e interação entre as comunidades humanas e as vegetais. No seu trabalho, a dupla alia uma ação contínua de pesquisa, inventariação e mapeamento das plantas espontâneas comestíveis e medicinais ao resgate de conhecimentos ancestrais e contemporâneos, numa lógica didática que propõe uma redescoberta da cidade através da recoleção e da deambulação pelos territórios do baldio urbano.
Explora temáticas relacionadas com a autonomia alimentar, a recoleção, o herbalismo, o saber-fazer, a paisagem, a memória, a etnobotânica e a literacia ecológica, promovendo ações colaborativas como cartografias, caminhadas guiadas, workshops, refeições, conversas, instalações comestíveis, exposições e publicações.

Fernanda Botelho
Fernanda Botelho (Sintra, 1959; vive e trabalha a partir de Sintra) é especialista em plantas silvestres, nomeadamente nos seus usos medicinais e culinários. Viveu 17 anos em Inglaterra onde fez formações em Botânica, Fitoterapia e Pedagogia. Estudou plantas medicinais na Scottish School of Herbal Medicine (1997). Tem o Curso de guia de jardim Botânico da Universidade de Lisboa (2006). É colaboradora do programa Eco-Escolas e autora de uma coleção de livros infantis: Salada de Flores (2011), Sementes à Solta (2013) e Hortas Aromáticas (2016). Escreveu As plantas e a saúde (2013), Uma mão cheia de plantas que curam — 55 espécies espontâneas em Portugal (2016), Ervas que se comem (2021), Flores que se comem (2022), Plantas do Mundo (2023) e o recém-lançado Árvores que se comem (2024). Publica anualmente, desde 2010, uma agenda de Plantas Medicinais. Organiza passeios guiados e workshops de reconhecimento de plantas a convite de várias entidades. Colabora, desde 2021, com A Recoletora.